terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ato I

Personagens:

Representantes da Ordem.

Representantes da Sociedade.

Marginalizado (Fora) da Ordem.

Bob, cão do fora da Ordem.

(Entra o coro)

A coisa toda ocorre de uma forma muito rápida, existe pouco tempo para pensar e menos ainda para agir. Depois, sobra apenas aquele gosto amargo na boca de que algo está errado e que nada foi feito para corrigi-lo. Entretanto, a sensação de que todos atuaram perfeitamente conforme seus scripts é ainda mais incomoda.

Analisando criticamente, a ação se passa de uma forma previsível e elementar, o Representante da Ordem existe para mantê-la, o Fora da Ordem existe também como uma forma de manutenção desta, nada mais natural que eles se encontrem ocasionalmente. Mas porque esta impressão de que algo está errado e estamos também sendo oprimidos? Na realidade, aquela pessoa com a cara sendo amassada contra o asfalto não faz parte da sociedade, ele está fora da ordem, não é por acaso que ele está sendo levado algemado sem acusação nenhuma, enquanto qualquer outro Representante da Sociedade precisaria cometer um ato fora da ordem para ser levado, este já nasceu fora dela e nunca terá a oportunidade de participar.

Cena Única

(Numa rua à noite)

Representantes da Sociedade: Solta! Ele não fez nada.

Representantes da Ordem: Dêem licença. Fomos chamados para atender esta ocorrência.

(Fora) da Ordem: Meu cachorro! Alguém cuida do Bob pra mim.

RS: O que ele fez? Ele mora aqui na rua. Não fez mal a ninguém.

RO: Ele vai ser levado para a delegacia e identificado.

RS: Mas ele não fez nada...

(O (Fora) da Ordem é levado para a viatura sem nenhuma outra explicação)

(Entra o coro novamente)

Num primeiro momento os Representantes da Sociedade são tomados por uma indignação e posteriormente pela crua e fria resignação, seguem cada um para suas tarefas e preocupações diárias. Para alguns, meros curiosos espectadores, apenas mais uma cena cotidiana já internalizada, para outros, atores sem falas, mais uma lamentável atuação em uma triste tragédia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Ceva na Tarde

Sol de rachar cuca, tarde de verão na cidade, estavam numa mesa na calçada do bar. Tomavam cerveja enquanto conversavam sobre suas mulheres, já haviam passado pelo futebol e pelos empregos. Não tardariam a chegar na "política", divergiam em alguns pontos particulares, mas no geral concordavam. Estavam descrentes em relação a qualquer coisa que pudesse partir das instituições vigentes, não tinham esperança na esquerda e tampouco na direita, ONG's e movimentos sociais, aos seus olhos, não pareciam capazes de mudar a situação, por mais que alguns obtivessem êxito em suas causas muitos outros se empenhavam em causa própria. Contudo, a realidade estava longe de ser satisfatória para ambos, Mikhail argumentava sobre a banalização das desigualdades e o quanto lhe incomodava ver alguém procurando comida no lixo ao seu lado. George falava sobre a complexidade do contexto e da cumplicidade da imprensa, lembrou-se de um argumento usado por outro interlocutor em uma outra discussão (estes assuntos se repetiam quase que invariavelmente), sobre a demanda da população pela programação televisiva e a pauta dos jornais, o que concordaram não se tratar de um argumento muito bom, pois continha implícito uma carta branca para transmitir qualquer porcaria com apelo comercial.

Estavam numa verdadeira sinuca ideológica, precisavam fugir das respostas hipócritas que visavam apenas a manutenção da ordem estabelecida, porém não encontravam alternativas capazes de modificar esta triste realidade. "Precisamos de uma lógica que seja mais humana", George concordou e acrescentou "Justamente, que priorize as pessoas e as trate como seres humanos", enquanto digeriam o que haviam dito as palavras ficaram pairando sobre a mesa do bar como sentenças fantasmas, ao passo que um sentimento de possibilidade, de viabilidade crescia novamente no âmago dos dois. "Uma Revolução!" irrompeu Mikhail, "É disto que precisamos, uma que seja cultural e estrutural simultaneamente". "Que parta das mesas dos bares e da resolução das pessoas" acrescentou George. "Claro, somente assim não haverá necessidade de algo arbitrário e exterior a elas". Ficaram por um tempo satisfeitos apreciando a idéia, até surgir a dúvida "Mas quanto tempo demorará para chegarem a esta resolução?". "Sem falar na pressão que é exercida de forma ampla e maciça em sentido contrário".

O silêncio voltou a imperar sobre a mesa, mas de uma forma triste e melancólica, ambos ficaram pesarosamente quietos e pensativos, chamaram o garçom e trocaram para a vodka, esvaziaram suas carteiras e encheram suas caras. A realidade tornava-se um pouco mais suportável.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

A dúvida como certeza

Chovia há uma semana incessantemente, uma chuva fina capaz de molhar os ossos e a alma. Miranda caminhava em direção a universidade com os tênis encharcados de pisar em poças e com um crescente desânimo em relação à aula que o esperava. Refletia, entre um guarda-chuva e outro, sobre alguns pontos do texto que o professor havia proposto, enquanto dúvidas, tão incessantes como a chuva, o atormentavam. Dúvidas estas, conhecidas e recorrentes, relacionadas as suas escolhas profissionais, ideológicas e de formação. Uma velha ladainha que ele recitava periodicamente, questionando todas suas opções e onde elas o haviam levado. Normalmente esta sabatina não passava de um hobbie, um esporte que praticava quando não tinha nada para fazer, pois dificilmente o levava a uma mudança radical, porém desta vez, estava convictamente inclinado a tomar uma decisão brusca.

Talvez fossem a chuva e os pés molhados, ou talvez o texto que havia lido penosamente com a perspectiva de nunca usar para nada aquelas informações, mas o certo era que estava decidido a largar a universidade. Estava cansado do ambiente acadêmico, do esforço despendido para um reconhecimento insignificante. Gostava do saber, do conhecimento, não lhe importava tanto esse reconhecimento, não era esta escolha que o perturbava mais. Contudo já não suportava mais as cadeias de abstrações gigantescas com usos por demais específicos, o pedantismo que pairava sobre as salas e os debates travados entre vaidades inflexíveis. Não via nada que o mantivesse mais sobre esta escolha, largaria seu curso hoje, começando por esta maldita cadeira.

Tamanha foi sua absorção nestes pensamentos que sem perceber seguiu inconsciente seu trajeto até o campus, estava ensopado prostrado em frente ao prédio, tentava acatar sua resolução, dar meia volta e rumar para casa, mas a visão daquele prédio seco e aquecido derrubou, como um castelo de cartas, todas suas convicções formuladas anteriormente. Entrou, subiu a escada e ingressou na sua sala, não havia ninguém, apenas uma nota anônima escrita no quadro:

- Não haverá aula hoje.

sábado, 29 de agosto de 2009

Justificativa

Estavam num pub qualquer, ouvindo uma banda qualquer, na esperança de não serem mortos pelo tédio cotidiano, misturando-se entre as pessoas numa tentativa de passarem incólumes por uma sexta-feira à noite. Não era sempre que tinham a oportunidade de justificar seus empregos, e esta noite era uma dessas raras oportunidades. Por isso decidiram beber a melhor e mais gelada cerveja do pub, beberam até somente o presente fazer sentido e sentirem-se felizes com o momento, naquele instante nada mais importava, ambos estavam altos e contentes um com outro.
Porém a felicidade foi feita para durar pouco. Após algum tempo começaram a se sentir entediados e deslocados. Foi quando um idiota irrompeu entre eles forçando a passagem, era o suficiente para desencadear “algo”. Ele endireitou a coluna e partiu para cima do babaca:
- Qual é tua?
- To passando babaca.
- Trouxa!
O cara empurrou-o e estufou o peito. Ela numa tentativa de impedir o esperado ficou entre eles pedindo para ele esquecer e deixar passar. Ele, porém, estava alto demais para dar vazão a razão e inclinado ao “algo”. Baixou a garrafa de cerveja quase vazia na cabeça do infeliz, que desabou como uma fruta podre, abrindo um círculo ao seu redor. Rapidamente, não sem antes pagar a conta, eles estavam fora do bar.
Não trocaram nenhuma palavra no caminho para casa, ao entrarem ela tirou a roupa e ele buscou outra cerveja, transaram intensamente antes de desabarem satisfeitos na cama. Fazia algum tempo que não transavam assim, por isso ele antes de perder a consciência, naquele último instante de lucidez pensou:
- Pronto! Algo foi feito.

sábado, 8 de agosto de 2009

A Tragédia de Hamlet

Hamlet dormia até a chegada de Paola, ela trabalhava de madrugada, na maioria das vezes transavam, em outras estava cansada demais para isso. Nestes casos ele ficava deitado e tentava dormir mais um pouco, porém a presença daquele corpo quente e macio ao seu lado dificilmente permitia o sono. Ficava analisando cada curva e textura do corpo de sua companheira com um tesão crescente fadado ao desperdício. Paola não era uma mulher propriamente longitudinal, possui a medida exata para deitar encoxada no corpo de Hamlet, mas seus quadris e coxas eram bem mais generosos. Hamlet então, permanecia deitado agarrado ao corpo dela, entrincheirado, sem poder avançar e sem vontade de recuar.
A resposta mais óbvia para este dilema já lhe ocorrera muitas vezes, contudo nunca funcionou conforme o planejado. Pior para ele que mantinha-se neste estado, pois não estava deitado relaxando ou refletindo, ficava tenso, atormentado com uma idéia fixa sobre aquele corpo maravilhoso que conhecia tão bem e estava tão próximo ao seu, pronto para ser tomado. Por fim decidia-se:
- Levanto, soco uma no banheiro e volto para o leito quente e para mais algumas horas de sono.
Porém, ao chegar no banheiro sua bexiga também demandava suas necessidades, e com o pau meio duro ainda, aliviava-se serenamente. Após isto seu impasse cessava, acendia um cigarro, ia a varanda e passava o resto da manhã a refletir sobre os propósitos de uma ereção.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Mãe da Criação

Chegou em casa sem vontade de fazer nada, um par de idéias do que fazer lhe ocorreram, mas nenhuma que o agrada-se suficientemente para vencer a inércia de seu espírito. Automaticamente ligou o computador e foi conferir os e-mails que havia visto a menos de duas horas atrás, alguns spams e divulgações depois acabou inevitavelmente em um site de sacanagem. Após uma bronha sentia-se levemente mais confortável, conferiu as mesmas noticias no mesmo jornal de eternamente e decidido a fazer algo ligou para um primo seu que estava de passagem pela cidade. O desgraçado atendeu sussurrando, pois estava no cinema, ficou de ligar depois do fim da sessão, não ligou. Lembrou de um mocotó congelado na geladeira a mais de um mês e da porra de um filme que já havia visto que iria passar na televisão. Estava aborrecido com a situação, mas sem motivação para nada mais elaborado ou dispendioso, precisava apenas matar o tempo durante tempo suficiente para o sono chegar. Na realidade precisava apenas de uma meta, por mais medíocre que fosse:

- Vou esquentar um mocotó velho e reprisar um filme já visto.

O grude ficou horrível, mas mesmo assim foi empurrado goela abaixo com vinho barato enquanto o filme rolava na caixa luminosa. Feito! Havia ganho, ou gasto duas horas e forrado o estômago com uma mistura perigosa, porém, apesar de alto não estava pronto para a cama ainda. Como o computador havia permanecido ligado decidiu ocupar o tempo e aliviar a mente escrevendo...