domingo, 27 de março de 2011

Beat Girl

Ela gostava de jazz. Apenas este fato já bastaria para despertar meu interesse. Era a primeira garota que eu conhecia que curtia jazz, não esse eletrojazz que rola nas rádios por aí, mas jazz clássico, de Brubeck e Coltrane. Talvez este anacronismo não fosse tão raro na cidade grande quanto parecia para mim, mas de fato ela toda parecia como que oriunda de uma outra época. Seus traços remetiam a uma inocência há muito perdida e eram acompanhados de uma melancolia permanente no olhar que lhe davam uma impressão ainda mais nostálgica. Fumava e falava com uma calma que literalmente hipnotizava os espectadores, que perdidamente buscavam seus grandes olhos entre nuvens de fumaça.

Conhecia quase todo o velho mundo e era surpreedentemente apenas alguns anos mais velha que eu. Junto a ela me sentia angustiado, como se estivesse até então na ante-sala da vida, esperando todos estes anos para descobrir este universo de infinitas possibilidades que ela me apresentava. Lugares, músicas, filmes, conhecia tantos e tão bem que me perguntava onde havia arranjado tempo para tanto.

Não consigo lembrar de como a conheci, creio que foi ganhando contornos e relevância conforme a descobria mais detalhadamente. A cada conversa ela ia conquistando mais espaço sobre minha mente, sempre versava sobre temas interessantes e possuía opiniões originais sobre quase todos assuntos. Sua influência sobre mim foi muito intensa, ao passo que em dois meses eu estava profundamente dependente daquela presença, nada mais me interessava além dela.

Uma noite estávamos num bar beatnik próximo da minha casa, cuja existência eu desconhecia, entre baforadas e batidas quando ela subitamente parou. Um sujeito havia entrado no bar e cortado sua respiração. Percebi no instante que havia algo errado, ela se recompôs e ensaiou um conversa desconexa, sua mente estava no balcão. Questionei-a sobre o cara, o óbvio ocorreu, era seu ex que a havia abandonado em Amsterdã no ano passado. Voltei sozinho para casa aquela noite.

Minha dúvida chegara ao fim, um convívio intenso com um cara mais experiente num apartamento cult, em alguma metrópole intelectual da Europa havia possibilitado uma experiência inesquecível. Como eu poderia competir com isto, meu universo limitado não me disponibilizava recursos para tanto. O cara era um sacana, largou ela sem dar nenhuma explicação, não sei se isto não contava a seu favor, mas ele era o cara que a iniciou e lhe ensinou tudo que sabia. Estava fadado à derrota.

De fato nunca mais fui procurado. Algum tempo depois ouvi falar que voltaram para a Europa. Quanto a mim, após esta experiência tratei de nunca mais me empolgar tanto, fiquei mais calmo e cético em relação as pessoas. Atualmente frequento bares esfumaçados em noites de jazz, impressionando novatas com poemas e filosofias pseudo-existencialistas...

quarta-feira, 9 de março de 2011

Garrett


Existe uma imagem que me ocorre com frequência, sua origem remete a histórias em quadrinhos e a mim parece a forma mais adequada para descrever a situação em questão. Trata-se de um local escuro, um tubo luminoso projeta imagens irregulares sobre alguém que não parece muito interessado. Há uma cerveja numa mão e um controle remoto na outra, a luz segue piscando contra seu rosto enquanto troca de canais aleatoriamente. Em uma sequência de quadros intercalados por um “zap” as mais diversas cenas surgem, acompanhados pelos mais esquisitos diálogos - noticiários de política externa, talk shows, programas de vendas e reality shows imbecis sucedem-se num mosaico medonho que por um breve instante de lucidez nos faz pensar que percebemos a realidade como um todo. Como se houvesse uma espécie de código por trás de toda essa informação e publicidade que nos permitisse ler as entrelinhas da humanidade e ver com clareza sua atual conjuntura, e a partir daí verificar seu provável rumo. Mas este instante é muito fugaz, ou o futuro muito desanimador, para que possamos fixar estas impressões, que facilmente escapam por entre os dedos deixando apenas a tela pulsante a nossa frente.

Talvez um estado de espírito entediado defina previamente esta situação, porém creio que a péssima qualidade dos programas favoreça o fluxo intenso de canais, contribuindo assim para o fenômeno descrito. Contudo, esta pretensa percepção não deve passar de uma ilusão absurda, uma vez que os programas televisivos, mesmo aqueles que se dizem informativos, são essencialmente formas diminutas e simplificadas de informação, feitos para serem digeridos o mais rápido possível sem o mínimo de critério. Logo, pensamos estar absorvendo criticamente esta grande massa de informação, enquanto que de fato estamos à deriva num oceano de publicidade sem conseguir se fixar numa bobagem exclusiva.

Porém as infinitas possibilidades permitidas pelo universo dos quadrinhos nos autorizam a imaginar uma pessoa com uma prodigalidade tal, capaz de não apenas reter um imenso fluxo de informações, mas de relacioná-las instantaneamente através de várias telas de forma simultânea. Supondo assim um indivíduo capaz de elaborar um panorama adequado a nossa teoria. Os fins para que usaria suas habilidades não seriam previamente definidos, mas a televisão como fonte de seus poderes sugere algo de pessimista, uma espécie de anti-herói desencantado com o mundo, relutante em acompanhá-lo e dele tomar parte. Seria alguém solitário, quase misantropo, capaz de usar suas faculdades em benefício próprio e de formas egoístas.

Analisando melhor seria um personagem chato, sacal em sua essência e existência, e precisaria de um ótimo roteirista e um bom contexto para gerar boas histórias. Mas seria um “herói” adequado e verossímil a realidade urbana moderna, onde a arquitetura, os indivíduos e seus hábitos permitem uma impessoalidade e um anonimato quase que total a seus habitantes.