quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Tormenta


Entre uma baforada e outra na varanda elas surgem, espremendo seus corpos cilíndricos contra a laje molhada da mureta elas sobem lutando para escapar da água que inunda a floreira. De certa forma é culpa minha que elas estejam nessa situação, eu que trouxe elas até ali na esperança de um convívio harmônico e produtivo.
Por isso recolho cada uma que aparece e deposito, o mais gentilmente possível, num pote improvisado com terra seca. Não é muito, eu sei, mas o que mais posso fazer? Na hora me vem a mente a imagem de grupos de refugiados que se jogam as águas do Mediterrâneo, sem garantia nenhuma de sucesso, impelidos unicamente por uma vontade de viver. Um paralelo horrível produzido pela minha mente anestesiada, mas que não deixa de guardar certa semelhança e inspirar alguma humildade.
Pois, no fim das contas, sejamos vermes anelídeos ou primatas superiores, estamos todos lutando pela nossa insensata sobrevivência. Movido por essa empatia separo o que sobrou de tabaco no apartamento, ¾ de uma garrafa de vinho tinto e me sento ao lado da mureta lavada pela chuva constante. Estou preparado para uma longa noite de resgate.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Uma outra Clarice


Tia Maluca, ela se chamava assim de vez em quando depois de uma gargalhada gostosa meio descontrolada. Não sem algum fundamento, pois a tia Clarice era qualquer coisa, menos convencional. Aliás, suspeito que a tia não se dava bem com nenhuma convenção ordinária ou normalidade. Descendente direta de Cleópatra, discípula trans temporal de Van Gogh, pintava e moldava o mundo a partir de sua perspectiva inconforme. Não fazia muita questão de ajustar-se a ele, presava por seus amigos queridos, familiares confidentes, hábitos sagrados (café e cigarro) e levava o resto ao seu modo. Um modo todo dela, que desde muito cedo testemunhei, mas que custei a entender.
De fato, foi preciso que eu me afastasse dessa experiência, estudasse e debatesse propostas revolucionárias de sociedades que só existem em teoria, para compreender o que a tia Clarice e o Lauci já me ensinavam há anos na prática: amor, tolerância e diversidade. Mais que definir e defender valores a partir de bases teóricas, a tia, junto do seu inseparável companheiro, vivenciava-os. Tendo o afeto como principal força motriz, eles formaram as mais heterodoxas e interessantes famílias que tive o prazer de conhecer.
E seguem formando, segurando as pontas nos momentos mais difíceis e oferecendo abrigo nas tempestades, de quebra ainda tensionam convenções e afrontam bons costumes. Só que a Tia Maluca não pinta mais por aqui, deixou seu legado de quadros e mulheres em perfil espalhados pelo mundo. Olhando meio de lado, como num convite para um café e um cigarro àqueles que não temem o extraordinário.